Startups

Este post é metade análise de um livro que li faz pouco tempo e metade divagações sobre a realidade do tema aqui no Brasil.

O livro. Startup, da Jessica Livingston. Lá fora o livro se chama Founders At Work (e tem o dobro do tamanho). É uma coleção de entrevistas com vários fundadores de empresas de tecnologia, como Apple, Yahoo, Paypal, Adobe, 37signals, entre outros, e foi lançado no Brasil há pouco tempo. Na maioria das entrevistas a autora conversa com os fundadores que são o lado mais hacker da empresa, e por isso na maior parte do tempo o livro acaba recheado de histórias envolvendo problemas e detalhes técnicos (sem entrar em muitos detalhes, obviamente), mas que com certeza surgem para toda empresa que está tentando inovar. Também relatam seus desafios pessoais relacionados a esse desafio de abrir uma dessas empresas que hoje são tão admiradas (e invejadas) por muita gente. O aspecto de negócios fica bem de lado, então não compre o livro achando que vai encontrar dicas de como gerar um negócio milionário.

O livro é uma ótima forma de incentivar pessoas inteligentes a pelo menos pensar na possibilidade de abrir uma startup. Ela mostra como todos esses negócios que mesmo hoje parecendo tão sólidos, passaram por dificuldades, obstáculos, tipo de coisa que fazem as pessoas desistirem de tentar levar a cabo uma idéia, uma vontade e continuar vivendo em seus cubículos. Por exemplo, o Steve Wozniak da Apple quase desistiu de abrir a empresa porque gostava do emprego que tinha. Provavelmente hoje não exitiria um iPhone se fosse por isso. O Evan Williams, que criou o Blogger, ficou um tempo sem dinheiro, trabalhando sozinho, perdeu amigos que trabalhavam para ele e teve que pedir dinheiro de doação para comprar servidores, para manter o serviço de pé. Tempos depois vendeu o serviço pro Google e hoje ele é o CEO do Twitter, alguém já ouviu falar? E para quem se dá a desculpa de que não tem uma boa idéia, sabia que o Flickr começou como um add-on para um jogo que a empresa produzia e acabou virando seu negócio principal? Às vezes boas idéias só vão surgir no meio do caminho, depois que você explora um pouco essa estrada.

Existem outras histórias muito interessantes, mas se você entende inglês recomendo que leia a versão americana que tem o dobro de entrevistas (que não li e não entendi até agora porque foi lançado assim no Brasil).

Startups no Brasil. Startup no modelo como essas do livro, do tipo que se encontra aos baldes lá no Vale do Silício, é bem difícil de se ver por aqui. Mesmo que se diga que o Brasil é um país de empreendedores, empresas que cheguem a esse nível de inovação (e por consequência alto risco) não são muito comuns. Na época da bolha da Internet, em que os investidores investiam em qualquer coisa que terminava com pontocom, até surgiram muitas empresas baseadas em tecnologia, mas a maioria sem um modelo sólido de geração de receita. As poucas que sabiam como gerar receita, como o MercadoLivre e o Buscapé, estão aí, bem firmes no espaço nacional. Ultimamente, com a onda da Web 2.0, outras empresas promissoras estão aí em todas as reportagens que se referem a negócios de Internet no Brasil, como a Aprex, a Camiseteria, a Boo-box e a Via6. Alguns nomes surgem no blog Startupi, mas comparando com outros países, muito poucos.

Muitos dizem que a razão de não existir um fenômeno como o Vale do Silício por aqui é a dificuldade de se empreender neste país. Fosse por isso, não existiriam outros tipos de negócio surgindo, numa proporção bem maior que as de tecnologia. Falta de investimento? Hoje chegamos em um ponto em que nunca foi tão barato criar um produto utilizando um computador e gerar um negócio a partir disso (provavelmente um tema para um post futuro). Se você escreve código e tem um computador a disposição, você já tem quase tudo que precisa, ou pelo menos a parte que seria a mais cara, e você nem precisa largar seu emprego para fazer algo. Junte isso a um plano bem elaborado, em que você mostre que vai um dia equilibrar as contas e ganhar mais dinheiro do que gasta, e pronto, você consegue algum investimento (se ninguém investir nesse negócio, é porque seu plano está ruim, ou o seu candidato a investidor não foi com a sua cara). É lógica de economia de primário.

Para mim existem duas grandes razões para que startups não sejam um fenômeno brasileiro:

  1. Falta de exemplos/modelos: nós não temos uma quantidade tão grande de caras que começaram a trabalhar numa garagem e se tornaram bilionários, como o Bill Gates, Jeff Bezos ou os caras do Google.Lá fora esses exemplos de sucesso são um fator que motiva muita gente a pelo menos tentar. Talvez o Brasil não tenha como gerar um Google, mas com certeza pode gerar bons negócios. E se não temos casos de sucesso (ou se eles são poucos conhecidos) é sua chance de mudar o país para melhor, de incentivar outras pessoas se tornando um exemplo.
  2. Mentalidade de país pobre: nós não somos um país rico, mas também não somos um país pobre. Mesmo assim, acho que muita gente tem essa mentalidade de que não dá para fazer nada muito inovador, avançado tecnologicamente por aqui, porque nós somos o Brasil e não uma potência como os Estados Unidos. Isso faz as pessoas pensarem coisas como “esse negócio de empresa de tecnologia é coisa de gringo”, “aqui no Brasil isso nunca ia funcionar”, que claramente é besteira. E faz as pessoas investirem em certificações, fábricas de software e treinamentos, com a esperança de tornar isso aqui uma versão mais barata da Índia.

Conheço gente muito inteligente, muito competente, que com certeza poderia estar fazendo muita diferença para o país, mas além dos fatores acima, por serem tão competentes, eles podem escolher pela segurança (teórica) de um emprego normal, e ganhar razoavelmente bem para os padrões brasileiros. Claro que empreender é arriscado, é trabalhoso, mas fico me perguntando se as pessoas encontram satisfação em um emprego “normal” na área de TI. Se elas encontram propósito, se podem dizer que estão mudando o Brasil, mudando o mundo.

3 Respostas para “Startups

  1. 100 falar no deptº de energia, de defesa, do carai a cinco e tudo + por trás da cortina para bancar a brincadeira….
    véio c vc tem dinheiro vai por numa parada sem comprovação de retorno???? E as garantias???
    Primeiro os laranja, depois os espertos e por ultimo os caras do dinheiro.
    Em 1995 tiha um curso dentro da USP/Poli/IEEE:
    Introdução à Internet com Netescape/Unix…..
    USP? Orgão público neh? Hum,Hum.
    O curso custava + de 50 e menos de 100 contos.

    Dois anos antes a Internet tinha se tornado comercial nos EUA.
    Curso de Internet em 1995 em terras Brasilis…Só na USP, uma dotigov ou uma revista sobre o tema e que nem existe mais…

    abs

  2. Vc está falando de um cenário de mais de 10 anos atrás. Tudo mudou muito. Mesmo nos últimos dois anos, tudo mudou muito . Hj vc pode ter toda a infraestrutura de um CPD a um custo baixissimo. Hj vc tem todo tipo de ferramenta disponível de graça. A parte mais cara da empreitada é o conhecimento para fazer essas coisas funcionarem pra vc.
    E tb, não existe muito lucro se vc não assume algum risco. Nem o salário do fim do mês é 100% garantido.

  3. Pingback: Desenvolvedor de software: esta é a sua era! « TI SIMPLES

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