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O desafio do software simples de gerenciamento de projetos

Todas as pessoas têm projetos. Desde o casal planejando o casamento, passando pelo designer criando um novo site para um restaurante até uma empresa que vai construir uma nova turbina. E é por isso que existem tantos softwares nessa categoria.

Castelo de areia

Projeto Castelo de Areia 3. Os outros tiveram problema de scheduling e budget.

Mas projetos têm diferenças em escala e natureza, e variam demais dependendo de quem os executa ou em que área se aplicam. Por isso existem, dentro da categoria de softwares de gestão de projetos, diversos subtipos. Existem sistemas para quem quer aplicar tudo o que aprenderam em um curso certificado internacionalmente de gestão de projetos e existem os mais simples e genéricos que ajudam grupos menores a se organizar.

Os sistemas mais complexos normalmente têm uma única forma certa de serem usados. Seguem as práticas do PMBOK e outras técnicas mais específicas ensinadas em cursos de MBA ao redor do mundo. São ferramentas vendidas aos CIOs que querem aplicar essa teoria que aprenderam. A maioria dos usuários não tem muita opção, são forçados a usar o sistema que o chefe do chefe deles escolheu.

Para capturar o mercado que esses sistemas complexos ignoram, surgiram muitas ferramentas mais simples para gerenciamento de projetos. A maioria deles parece com uma lista de tarefas suplementada com recursos para facilitar a colaboração com outras pessoas. É o mundo das pessoas que só precisam saber o que precisa ser feito e o que foi feito. Pessoas que normalmente não gostam ou não sabem usar um gráfico de Gantt.

Esses softwares mais simples têm como mercado alvo principal empresas menores, profissionais liberais ou até grupos ou indivíduos sem ligação com uma entidade com fins lucrativos. Por isso são mais baratos, às vezes até de graça.

Exemplos desses sistemas mais simples: Basecamp, Asana, Flow e Runrun.it.

Diferente dos sistemas mais complexos, esses softwares costumam ser adotados pela equipe, não forçados como uma decisão hierárquica para toda a organização. Mas isso, combinado com seu preço baixo e a natureza simples de suas interfaces, pode ser uma faca de dois gumes.

Hoje em dia todo software vendido pela internet tem a palavra “simples” ou “fácil” no texto de seu marketing. A ideia é que empresas menores não querem comprar algo que vá exigir treinamento, querem uma ferramenta que um leigo vá bater o olho e intuitivamente possa usar, ou algo bem próximo disso. Todos esses sistemas de gerenciamento são vendidos assim.

Existem infinitas maneiras de se organizar para conduzir um projeto. E projetos, dependendo de sua natureza, podem exigir peculiaridades para que tenham esse tipo de controle. Essas ferramentas optaram por simplicidade para oferecer flexibilidade, para que possam ser usadas na maior variedade de projetos possíveis. Mas existe uma linha tênue entre ser simples e ser genérico demais.

Algumas pessoas vão olhar para esses softwares e achar que são genéricos demais, que não fornecem estrutura ao trabalho suficiente para auxiliar o andamento de um projeto. Eles dependem de disciplina de quem vai usá-los. O sistemas mais complexos são impostos, os mais simples precisam lutar para que a equipe não tenha um motivo para trocar para outra ferramenta do mesmo tipo, já que seu custo não vai ser muito diferente.

E o maior desafio é que eles dependem da disciplina da maioria dos membros da equipe. Se alguns membros não alimentam o sistema da forma como a equipe espera que o façam, o sistema se torna inútil. A adoção sempre fica limitada ao limite da paciência dos membros menos organizados e disciplinados. Esses membros poderiam ser ejetados da equipe, mas isso nem sempre é possível e o custo de experimentar outra ferramenta é sempre menor.

Isso criou a figura do “chato do Basecamp” ou “polícia do Asana”, ou qualquer coisa equivalente para sua ferramenta. É a pessoa que precisa cobrar os outros membros para que eles usem corretamente o software.

No final, mesmo sendo genéricos, essas ferramentas acabam tendo formas mais otimizadas de serem utilizadas de acordo com a forma como foi montada a experiência de usuário. Mas a maioria das pessoas é resistente a ideia de mudar a forma como gosta de trabalhar só para se adequar ao fluxo de uma ferramenta que eles nem sabem se vai lhes dar algum retorno. Por isso essas ferramentas tentam não fazer o que os softwares maiores e mais complexos fazem que é vender uma solução casada com uma metodologia fechada.

Esses desafios abrem espaço no mercado para ferramentas que sejam construídas com nichos mais específicos desde sua concepção.

Já usei várias dessas ferramentas em diversos projetos e não pode dizer que as acho ruins. Só que o fato de que elas são intercambiáveis, alguém poderia ter escolhido outro software da mesma categoria e o projeto teria o mesmo resultado, mostra que ainda não temos uma ferramenta definitiva. Não temos o Microsoft Office ou Google da gestão de projetos.

E talvez isso seja impossível pela diversidade de formas de se trabalhar, ou precise realmente ser fragmentado para formas otimizadas para cada tipo de projeto que precisem ser vendidas junto da ferramenta, ou ainda, pensar em como construir uma solução que atenda bem até as pessoas que não querem usá-la mas fazem parte do projeto. Enquanto isso, eu continuo na minha busca pelo software perfeito para mim.

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Pequenas histórias de pequenas empresas milionárias

Eu já escrevi aqui que desenvolvedores tem vários recursos para se tornarem donos de seus próprios narizes e quem sabe mudar um pouco o mundo. Mas provavelmente muitos devem olhar para o que eu disse e se coçar para não postar um comentário como “ok amg, mas como é que eu vou brigar com o Google, IBM e Microsoft se nem sei fazer miojo?” ou “como eu vou montar uma equipe grande o suficiente para fazer um produto que alguém compraria? como eu pago esse pessoal? com o corpo??”. Por isso achei que era a hora de dar alguns exemplos, para quem sabe mudar a cabeça dos incrédulos e para inspirar os que já estão convencidos da idéia.

Resolvi pegar dois exemplos de empresas pequenas, que ficaram milionárias em um curto espaço de tempo, que não receberam nenhum investimento externo e que basicamente começaram como um empreendimento de uma pessoa só, empresas em que apenas o fundador fazia tudo no começo. Alguns podem dizer que U$1 milhão é pouco para uma empresa, e realmente é o que a maioria do pessoal que trabalha com Venture Capital iria pensar já que eles estão correndo atrás dos próximos Googles e Facebooks. Não sei vocês, mas eu já estaria bem confortável nessa situação, e principalmente orgulhoso de saber que aquele milhão fui eu que construí.

Tentei resumir ao máximo a história das empresas só para que o maior número de pessoas as conheçam, mas recomendo que os interessados se aprofundem, leiam as entrevistas completas, blogs e twitters dos empreendedores. E sem querer desmerecê-los, já que obviamente são pessoas muito competentes, pense se não poderia ser você contando essas histórias.

Twitpic

Em 2008, um sujeito chamado Noah Everett, na época um programador web, montou um site para ajudar a compartilhar fotos no Twitter, chamado Twitpic. Fez isso usando um único servidor, pagando do próprio bolso, desenvolvendo sozinho o serviço. Por um ano e meio ele era a única pessoa da empresa. Hoje a empresa tem quatro funcionários (Noah, seu pai, sua mãe e um programador contratado que ele nunca viu pessoalmente). Hoje o site é um dos serviços mais populares do Twitter, prestes a atingir a marca de 6,5 milhões de usuários e faturando aproximadamente U$1,5 milhões por ano.

Você pode assistir uma entrevista com Noah aqui (em inglês). E visitar o Twitpic aqui.

Balsamiq

Em março de 2008, o italiano Giacomo Guilizzoni fundou a Balsamiq Studios, para vender um software chamado Mockups, usado para fazer wireframes, muito úteis nas fases de prototipação de softwares e websites. Giacomo que já foi Engenheiro de Software Senior na Adobe, sendo um dos responsáveis pelo Adobe Connect por exemplo, gostava de desenvolver software, mas também se interessava muito por business e queria ter seu próprio negócio. Mesmo sendo uma empresa de um homem só (e ajudado pela esposa), ele conseguiu 5000 clientes em menos de 11 meses e só contratou o primeiro funcionário em 2009. Hoje a empresa é formada por quatro pessoas, contando com sua esposa e registrou lucro em 2009 de exatos U$1.139.919,59.

Você pode ler uma entrevista com Giacomo aqui. Outra mais recente aqui. O site da Balsamiq Studios é este aqui.

Se você conhecer mais histórias como essas, compartilhe conosco aí nos comentários. Me ajude a inspirar os próximos milionários.

Desenvolvedor de software: esta é a sua era!

Houve um tempo em que você precisava encontrar um poço de petróleo para ficar rico. Em um passado mais recente, você precisava ter as manhas (e os nervos de aço) de Wall Street para isso. Mas hoje, mais do que nunca, estamos vivendo a era do desenvolvedor de software, do programador, do engenheiro!

Provavelmente muitos estão pensando que eu cheirei uma mistura de 7 drogas alucinógenas para escrever isto, porque trabalham na área e, apesar de não ganhar um mau salário estão longe de poderem se declarar milionários ou algo do tipo. Muitos provavelmente acham que poderiam ganhar mais e alguns até migram para outros países para ter um rendimento melhor.

Mas acreditem em mim quando digo: nunca antes esteve tão próxima a possibilidade para uma pessoa esperta, com um computador conectado à internet, de fazer muito dinheiro, de gerar um império e de posar tomando champagne na ilha de Caras.

Pode ser você na próxima capa!

Pode ser você na próxima capa!

Então quais são os fatores que tornam o presente tão especial assim para quem escova bits? Em nenhuma ordem em especial, eis a pequena lista:

  • Software de código aberto e de graça: hoje podemos dizer que software livre é uma realidade madura, não apenas um sonho de programadores barbudos. Tanto que existem empresas que se baseiam em open source e não precisam vender seus rins para continuar funcionando (ou podem ganhar algumas centenas de milhões como no caso da SpringSource). Hoje uma pessoa pode iniciar um negócio sem precisar gastar fortunas com software ( e normalmente desenvolvedores são bons o suficiente para lidar com esse tipo de software). Além disso, como estamos falando de desenvolvedores de software, código aberto pode servir como blocos de construção para partes de seu produto ou serviço, diminuindo radicalmente seus custos de desenvolvimento.
  • Computação em nuvem: esta é uma tendência bastante recente e que ainda está amadurecendo. Graças à computação em nuvem você não precisa ter um CPD só seu, ou comprar uma porrada de servidores que você nem sabe se vai precisar e ainda ficar mantendo. A computação em nuvem permite que alguém tenha à sua disposição uma enorme quantidade de poder computacional a um custo muito baixo,  proporcional à sua necessidade. Se você é um desenvolvedor, esta é a forma mais barata de disponibilizar algum produto/serviço para um grande público e poder aumentar seu poder conforme a demanda aumenta. É uma tecnologia que foi um presente dos céus (ok, esta foi muito infame).
  • Internet e redes sociais: nem a internet, nem as redes sociais são novidade, mas o amadurecimento desse conceito de interconectividade das pessoas amadureceu muito (Twitter e Facebook que o digam). Hoje conhecendo a rede, uma pessoa pode divulgar seu produto/serviço com um custo muito menor e com um alcance muito maior, sem precisar gastar fortunas com uma consultoria de marketing. Hoje você pode lançar serviços para o mundo todo, com clientes que você nunca vai encontrar cara a cara, mesmo que você trabalhe de um pequeno escritório com 10 pessoas (contando com a tia do café). Além disso, hoje você pode aprender qualquer coisa relacionada à tecnologia e programação utilizando a Internet, sem depender de cursos e livros, e de graça.
  • Baixo investimento inicial: os itens acima ajudam muito a diminuir o investimento necessário. Mas se você parar para pensar na idéia de algumas pessoas em uma garagem, com um computador conectado à Internet, deve concordar comigo que existem poucos tipos de negócios que podem ser criados com um investimento tão baixo mas com capacidade de gerar tanto retorno, quanto trabalhar com software. Você não precisa se preocupar com matéria-prima, fornecedores, estação do ano, cotação do dólar (em geral). Tudo vêm da sua cabeça! Pense na poesia disso: você pode construir coisas poderosíssimas a partir do nada! Você é praticamente um deus!

Mas se esses fatores estão aí, são de conhecimento de todos, porque não temos programadores se tornando milionários toda semana (aqui no Brasil pelo menos)? Lembre-se que eu mencionei que o desenvolvedor que tem potencial de tudo isso deve ser um pouco esperto. Na verdade, não só esperto, porque iniciar um negócio, principalmente envolvendo inovação tecnológica, sempre exige uma dose de sorte e perseverança. Se isso não te assusta, o que mais você precisa levar em consideração:

  • Você precisa entender um pouco de negócios: quando digo isso não quero dizer que seja necessário que um cara apaixonado por Lisp precise se tornar o Jack Welch. Mas você precisa começar a considerar o que é mercado, concorrência, receita, fluxo de caixa e principalmente: produto. Comece a estudar casos de sucesso e fracasso que se pareçam com o que você tem em mente. E mantenha foco no mais importante e mais simples: o que eu posso oferecer como produto é algo bom o suficiente para alguém se interessar?
  • Idéias estão por todos os lados: acho que até existe muita gente que tem vontade de começar um negócio, mas a desculpa mais usada é que não tem uma idéia. Acho que quando você começa a dar mais ouvidos para seu chato interior, você começa a ver que falta de idéias não é uma boa desculpa. Sabe aquele produto/serviço/software/sextoy/whatever que tinha algum problema, algum detalhe, alguma coisa que realmente te irritou, e que você queria que fosse diferente? Você pagaria por isso se fosse diferente do jeito que você imaginou? Então está aí, o seu produto. Se mesmo com meu processo de criação você não conseguir pensar em nada, delicie-se com a lista de idéias que o Paul Graham da YCombinator disponibilizou um tempo atrás: http://ycombinator.com/ideas.html
  • Não tente ser perfeito: não sei se é algo que eu posso realmente generalizar, mas acho que na cabeça altamente lógica dos programadores, eles procuram o negócio perfeito, da mesma forma que gostariam de construir software sem bugs. O negócio que vai deixá-los ricos e famosos com o mínimo de trabalho, e vai funcionar de forma perfeita quase como mágica, fazendo o Google se sentir humilhado. Mas isso é perda de tempo. Foque em conseguir fazer algo bom o suficiente. Tentar alcançar o perfeito é simplesmente caro demais. Olhe para as empresas que prosperam, e verá que elas não são perfeitas, nem seus produtos (às vezes, bem longe disso). As melhores são as que focam em fazer algo bom o suficiente.
  • Diminuindo os riscos: você não precisa largar seu emprego para começar um negócio. Vai te custar algum tempo que antes era livre para outras coisas, mas pode ser seu bilhete para um pouco mais de liberdade, em troca de um pouco de stress que o medo do incerto iria te gerar (principalmente se você tem família para sustentar).
  • Obtendo investimento: infelizmente no Brasil não temos tantos casos de investimentos quanto um Vale do Silício, em que você acaba esbarrando com investidores nos restaurantes locais. Mas eles existem. Tente focar no simples: se eu fosse um cara com um bocado de dinheiro para investir e fazer mais dinheiro, eu apostaria no meu negócio? Escreva um plano de negócios e mostre que não investir em você pode ser uma oportunidade desperdiçada.

Eu sei que eu falei muito de dinheiro, mas acho que a regra de ouro é você fazer algo que você vá gostar. Começar um negócio porque você acha que qualquer emprego que te ofereçam ou que você consiga por aí não vai satisfazer seu potencial. Porque se você parar para pensar, tudo que falei dá um trabalho animal, maior do que provavelmente você encara no seu emprego. Se você vai ter muito trabalho, é melhor que seja com algo que você goste (provavelmente se você não gosta, você nem vai aguentar muito tempo tentando). E que a médio ou longo prazo vai te dar alguma satisfação pessoal. Porque o fator mais incerto disso tudo é o retorno financeiro.

E o que vou falar agora vai soar como coisa de livro de auto ajuda, mas é algo em que eu realmente acredito (além do Paul Graham e Guy Kawasaki). Se for fazer algo, faça algo para mudar o mundo para melhor. Sério, soa meio idealista e romântico, mas eu não acho que a promessa de retorno financeiro seja um motivador o suficiente para trilhar esse caminho tão difícil. Quando você faz algo que torna a vida de algumas pessoas melhor, você está mudando o mundo para melhor. Quando você dá o exemplo do que é agir corretamente e com valores, você está tornando o mundo melhor. Você conhece algo mais motivador do que mudar o mundo para melhor?

Faça história!

Contra a regulamentação da profissão de analista de sistemas

O Projeto de Lei 607/2007 chegou ao Senado com parecer favorável (e você pode acompanhar o processo neste link, se o servidor do Senado te ajudar). É um tema que já foi bem discutido em outros blogs, como o Não ao PLS 607/2007, dedicado a isso, pelo Professor Silvio Meira, e por colegas de profissão, como Phillip Calçado e Rodrigo Kumpera. Recomendo que leiam esses posts todos, que possuem muitos argumentos com os quais concordo.

Para resumir a história, o projeto de lei propõe a criação de um Conselho Federal de Informática e Conselhos Regionais espalhados pelo país, no mesmo molde do Conselho de Medicina. Também seguindo o modelo dos nossos amigos médicos, o projeto de lei quer tornar obrigatório que um Analista de Sistemas seja formado em uma faculdade de Ciência da Computação, Sistemas de Informação ou Processamento de Dados. E quem não tem nenhum desses diplomas? Quem possuir 5 anos comprovados trabalhando em TI, vai ter uma colher de chá, mas os outros serão considerados ilegais.

Muita gente olha para isso e pensa que essa lei vai botar ordem na casa. Afinal, médicos são fodões, e respeitados e ganham melhor que você que programa em Visual Basic. Finalmente, depois de tantos livros e cursos que você fez, vai poder andar na rua com muito mais orgulho, e blá, blá, blá.

Desculpem o balde de água fria, mas essa lei é um retrocesso, um atraso para o país. Não é um passo para trás, é praticamente um moonwalking. Eis os principais porquês:

Competitividade no cenário global: o Brasil já tem dificuldade para competir com outros países na hora de vender TI por causa da burocracia, dos impostos e da barreira da língua. Coloque mais uma coisa para dificultar, como por exemplo uma regulamentação da profissão de analista de sistemas, e veja investidores começando a olhar para o Kuwait ou Polônia como opções mais lucrativas que o Brasil. Pior, começa a valer muito mais a pena para as empresas brasileiras contratarem serviços de outros países, como a Índia. A regulamentação no Brasil não vai criar e nem proteger empregos. Ela faz os empregos migrarem.

Barreira ao empreendedorismo: no Brasil já é complicado abrir um negócio, porque a lei não te ajuda, os impostos comem todo aquele capital que você preferia transformar em mais empregos. A regulamentação da informática torna as coisas ainda mais complicadas, ainda mais hoje que toda empresa precisa pelo menos um pouco de TI. Obrigado a contratar pessoas com diploma e todos os outros detalhes exigidos pelo Conselho Regional, o empreendedor se torna refém dos preços tabelados causados pela falta de mão de obra.

Barreira à inovação: Países que são pólos efervescentes de inovação em tecnologia como os Estados Unidos e a Índia não criam esse tipo de barreira e é por isso que estão aonde estão. O Vale do Silício (de onde sairam as principais e mais famosas empresas de TI do mundo) não existiria com uma lei que torna mais complicada a captação de talentos. E como uma regulamentação pode definir o que é o mínimo que um profissional deve conhecer em uma área tão dinâmica como tecnologia? Isso acaba tendo o mesmo efeito que o vestibular, em que as pessoas vão investir nesse conjunto mínimo de habilidades, ao invés de se arriscar estudando coisas que poderiam gerar muito mais valor.

Baixa oferta de mão de obra qualificada: a gente já está cansado de ouvir as notícias de que está faltando mão de obra qualificada para preencher as vagas de tecnologia em empresas. Mesmo com a crise isso é verdade, como você pode ver nos sites de ofertas de emprego. Com a regulamentação você torna o número de possíveis candidatos ainda menor. O que começa a tornar interessante terceirizar ou contratar serviços em outros países. Ou fechar as portas. Ou engolir a qualidade baixa de qualquer jeito (você não acha que ter diploma seja sinônimo de qualidade, certo?).

Incentivo à mediocridade: não posso opinar sobre outras profissões que não conheço direito. Mas em informática, uma reserva de mercado só vai servir para proteger os medíocres, os caras que tem o diploma e pagam a mensalidade do Conselho Regional em dia, mas que são profissionais bem “mais ou menos”. Normalmente são os caras que se formaram em alguma Uniesquina do grupo Tabajara (se alguém se forma no seu curso sem saber programar, seu curso é picareta) por aí, em que o processo seletivo se tratava de assinar o cheque, e quase todo mundo se forma no tempo certo (se pagar direitinho). Esse cara pode ficar mais despreocupado ainda em tentar melhorar, já que a carteirinha de registro dele e a falta de mão de obra seguram o emprego dele. Se bobear, ele apenas assina os projetos. Os caras bons, diferentes dele, hoje já se diferenciam tanto que não tem problema para se colocar. Se souberem vender seu peixe até conseguem um bom salário. Os bons não precisam dessa lei para se proteger.

Farinha do mesmo saco?: O projeto de lei trata todo profissional de TI como Analista de Sistemas ou Técnico de informática. Inclusive diz que pessoas que vão gerenciar projetos ou fazer auditoria precisam ser profissionais com diploma na área. Tudo bem que acho meio complicado lidar com gerente de TI que entende pouco de informática, mas acho um exagero dizer que alguém precise de um diploma na área para entender o suficiente para gerenciar o projeto. Desenvolver um sistema e gerenciar pessoas são competências muito diferentes, e acredito que uma pessoa que se formou em Ciência da Computação não morra de amores por gerenciar um projeto, da mesma forma que alguém que se formou em Administração não deve achar muito legal desenhar a arquitetura em camadas de um sistema web de alta performance. Acho besteira desperdiçar o tempo dos professores e desses alunos que acham mais legal gerenciar, com aulas sobre árvores rubro-negra, por exemplo. Sem falar que os cursos de TI normalmente não tem quase nada voltado a planejamento, coordenação e etc. (ainda bem, porque se tivessem iriam deixar de fora partes importantes do currículo).

Mais uma taxa para machucar seu bolso: Essa é fácil de justificar. Você, trabalhador honesto, acha legal pagar uma taxa anual (ou mensal, sei lá) para poder continuar trabalhando honestamente? E os impostos que você já paga?

Diploma como um fim: a regulamentação parte do pressuposto de que o diploma é um fim, e não um meio para que o sujeito se torne um bom profissional. Como se ao receber o diploma ele se tornasse um ser iluminado, saindo de seu casulo dourado para se tornar um super mega fodaço analista de sistemas. Acredito que todo mundo que trabalha na área já conheceu gente que tem o diploma e mesmo assim é um zero à esquerda como profissional. Todo mundo da área sabe que existem muitas faculdades que não se preocupam com a qualidade do curso, e sim com a lucratividade do negócio do diploma. A regulamentação ajuda as pessoas que vêem o diploma como um fim a se tornarem mais acomodadas ainda. Porque elas sairam do casulo dourado.

Contra-argumentos comuns e esperados

Reservei este espaço para já deixar meio respondidos os principais contra argumentos (alguns meio idiotas) que vejo por aí quando este assunto é discutido.

Você está reclamando porque não tem diploma“: Falso. Eu sou formado em Ciência da Computação. Mesmo assim, acho idiota esse argumento. Discussões se fazem com idéias, não com credenciais.

Você deixaria uma pessoa qualquer que não fosse formada em medicina te operar numa sala de cirurgia?“: Dã! Esse contra argumento assume que essas duas profissões são muito parecidas, o que não é verdade. A medicina não avança na mesma velocidade que a tecnologia. A medicina é uma profissão em que o diploma está muito mais próximo da finalidade a que se propõe (vide metáfora do casulo dourado), mesmo que no decorrer da profissão o profissional precise se atualizar. E principalmente, em uma mesa de cirurgia uma pessoa pode morrer. Como você vai saber se aquele cara que vai te operar (cruz-credo, bate na madeira) pelo menos tem uma idéia do que está fazendo? Um jeito de testar é deixar ele fazer, mas você pode não estar lá para dar o veredito depois. Em informática, você pode e deve levar um tempo para avaliar a competência de alguém. Se você tem um cara muito ruim no seu projeto, você vai notar depois de um mês. Você não tem um mês para avaliar um médico.

Sem a regulamentação a área fica cheia de oportunistas que aprenderam a programar com um livrinho de banca de jornal e oferecem o serviço a preços muito baixos.“: Oi, conhece capitalismo? Se o serviço que esse garoto fornece, com conhecimento de banca de jornal, atende o que esse suposto cliente está querendo, qual é o problema? E se o que o cliente queria era realmente algo muito simples, possível de se fazer com conhecimento de banca de jornal? Esse cliente também tem que ter na cabeça de quem ele está comprando, e está assumindo esse risco. Muitos vão preferir um profissional graduado para não arriscar e vão pagar mais por isso. O mercado tem diferenças gritantes de salário, e na minha opinião é muito mais questão da pessoa saber se vender (no bom sentido).

Conclusão

A regulamentação só gera mais dinheiro para donos de faculdades picaretas, para as pessoas que vão fazer parte desses conselhos e vai passar um bom tempo contando o dinheiro das mensalidades dos profissionais registrados e para os profissionais mais acomodados. É uma lei que beneficia poucos e prejudica o crescimento do país. Enquanto isso, países que levam a tecnologia e desenvolvimento a sério nem cogitam criar uma lei como essa.